Ricardo Banana

Dia da Gentileza, 13 de novembro

No dicionário, gentileza significa “qualidade ou caráter de gentil”. Palavra de nove letras que faz toda diferença na convivência em sociedade. Mas, afinal, o que é mesmo ser gentil? Não custa lembrar. São pequenas atitudes, gestos e palavras que podem mudar o dia de quem está próximo — como um simples bom-dia, por exemplo. Um sorriso, ao dar passagem a alguém no elevador, ou ceder o lugar no ônibus ou no metrô, ou socorrer a pessoa que tropeçou…

Em meio a uma rotina corrida e de falta de tempo, coisas simples assim costumam ficar em segundo plano. Mas não para gente como os jovens que fazem parte do coletivo Mapa Gentil, com a proposta de transformar para melhor pelo menos algum momento do dia do ser humano. Um dos trabalhos, para isso, é espalhar, pela cidade, arte com mensagens positivas. São obras em placas motivadoras, grafite, stickers (em adesivos) e esculturas feitas de lixo.

O projeto se inspirou na vida do paulista José Datrino, que ficou conhecido como José Agradecido e Profeta Gentileza, depois que se mudou para o Rio de Janeiro e passou a circular pelas ruas da cidade, nas décadas de 1980 e 1990, vestindo uma bata branca enfeitada e pregando o sentido do amor, da espiritualidade e da solidariedade. Com essa visão, o coletivo começou a atuar em uma escola pública, com um alvo específico, os alunos do ensino médio.

A iniciativa deu tão certo, segundo Janaína André, idealizadora do projeto, que o diretor do colégio pediu que continuassem, alegando que as ocorrências de violência dentro da instituição haviam diminuído. “Vimos que a gentileza dentro do espaço escolar pode ser uma solução para os problemas e uma mediação entre as relações.” Hoje, o Mapa Gentil conta com uma rede de artistas que oferecem oficinas e laboratórios criativos na busca de soluções para os problemas sociais locais.

A proposta já alcança as cidades de Taguatinga, Ceilândia, Riacho Fundo e Samambaia. O coletivo acredita que a mobilização social para a transformação pode ser construída por meio da arte contemporânea como forma de educação pública. E o projeto sempre se inspira na própria vida e trabalha na dinâmica de pessoas, espaços, lugares e memória.

Arte de cuidar

“Focamos na ética e na estética da gentileza. Escolhemos um lugar que seja simbólico daquele local e que precisa de cuidados”, explica Janaína. “Trabalhamos com a ideia de que o espaço público é a extensão da nossa casa e, por isso, precisa ser cuidado”, diz ela. O próximo passo será estender a proposta para o lado norte de Brasília, começando por Sobradinho.

O principal conceito do projeto é instalar e mapear tudo que é confeccionado. Após esse processo, os participantes convidam a comunidade local a fazer um passeio pelas obras. “São roteiros culturais fora da área central de Brasília. É uma galeria a céu aberto que possui obras gentis. Isso promove encontro de pessoas e estimula a redescoberta da própria cidade. Incentivamos até a mobilidade delas”, conta Janaína.

Uma das ações mais conhecidas são as placas com frases ou palavras otimistas. A ação nasceu de um jogo que Janaína criou — a Trinca Social, um baralho em que os jogadores discutem os problemas sociais, as causas e as soluções. A confecção das placas é o resultado obtido ao final. “É algo que transcende a atividade, não fica somente lá.”

Desde 2012, mais de 70 placas foram instaladas pelas ruas do DF. Para Janaína, a gentileza precisa ser vivenciada por todos diariamente. Mas a data comemorativa vale para que seja feita uma reflexão de como as relações humanas são construídas e a forma como lidamos com o outro. “É um exercício de pensar no coletivo. Tem a ver com o que o profeta falava de dar amor a quem não se conhece.”

(Trabalhos para Escola).

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