Especialista explica sinais de atenção e reforça a importância do acompanhamento odontológico
A popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” no Brasil tem levantado um alerta que vai além da perda de peso: os possíveis impactos na saúde bucal. Desenvolvidos inicialmente para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, esses medicamentos vêm sendo cada vez mais utilizados, inclusive, em alguns casos, sem prescrição e acompanhamento adequados. Mesmo quando indicados por médicos, especialistas alertam que os efeitos colaterais também podem se manifestar na cavidade oral, exigindo atenção dos pacientes e acompanhamento odontológico.
De acordo com o cirurgião-dentista e professor do curso de Odontologia da UNINASSAU Petrolina, Ricardo Lima, um dos principais prejuízos à saúde bucal está relacionado à redução da produção de saliva. “A maioria desses medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida pode provocar hipossalivação, ou seja, diminuição da produção de saliva pelas glândulas salivares. Isso desencadeia a sensação de boca seca, conhecida como xerostomia, condição comum entre pacientes que utilizam essas medicações, e pode trazer diversas consequências”, explica.
Segundo o especialista, a saliva desempenha funções essenciais para o equilíbrio da saúde bucal. “Ela atua na lubrificação das mucosas, contribui para a mastigação e o início da digestão dos alimentos, protege os dentes ao neutralizar ácidos e favorece a remineralização dentária. Com a produção reduzida, há aumento da proliferação de microrganismos e maior risco de doenças como cárie, além de condições como a halitose”, destaca Ricardo. Ele acrescenta que a hipossalivação favorece o mau hálito e que alterações gastrointestinais e hábitos inadequados de higiene também devem ser considerados.
Outro efeito colateral observado é o vômito recorrente, que pode provocar erosão dentária. “Quando o conteúdo ácido do estômago alcança a cavidade oral, ocorre desgaste das superfícies dos dentes. Em condições normais, a saliva neutralizaria esses ácidos, mas, como sua produção está reduzida, o problema pode se agravar”, afirma. O especialista ressalta ainda que não é o emagrecimento em si que compromete a saúde bucal, mas possíveis deficiências nutricionais decorrentes de dietas inadequadas. “Carências de nutrientes como vitaminas C, D e B12, além de cálcio e fósforo, podem tornar a gengiva mais suscetível a doenças como gengivite e periodontite”, aponta.
Ricardo Lima esclarece que não há contraindicação odontológica para o uso das medicações quando existe prescrição médica adequada. “Até o momento, não há evidências de riscos à saúde bucal que justifiquem recomendar a suspensão do medicamento, nem mesmo entre pacientes diabéticos, que já possuem maior comprometimento imunológico. Quando há indicação clínica bem estabelecida, a Odontologia deve contribuir no manejo das possíveis complicações, que podem ser acompanhadas e tratadas antes ou durante o uso”, pontua.
“Nenhum medicamento é isento de efeitos adversos. O paciente deve informar ao dentista qual medicação utiliza, a dose e a duração do tratamento, além de relatar quaisquer sintomas na cavidade oral. A recomendação é manter os hábitos de higiene bucal, realizar consultas periódicas e procurar avaliação profissional ao perceber qualquer desconforto”, finaliza o professor.

