Política

Do feed à urna: influenciadores digitais ocupam espaço crescente na disputa eleitoral

A presença de influenciadores na política não é uma novidade. Na última eleição nacional, em 2022, foram identificadas 40 candidaturas em 12 estados, incluindo Pernambuco, e o Distrito Federal

Há alguns anos, um novo ecossistema político tem se consolidado no Brasil: a presença de influenciadores na disputa eleitoral. O palanque, agora, também é virtual e vertical, tem como moldura o celular e filtro para suavizar não apenas a aparência, mas também um discurso afinado com aqueles que passam horas “rolando o feed”.

Mais do que o cara a cara costumeiro, a nova estética recorre à conectividade. Agora, as promessas e propostas são apresentadas em cortes dinâmicos publicados em plataformas como o TikTok e Instagram, de forma imediatista e na velocidade de um clique.

A presença de influenciadores na política não é uma novidade. Na última eleição nacional, em 2022, segundo o levantamento Donos da Mídia, projeto permanente do coletivo Intervozes, foram identificadas 40 candidaturas de influencers em 12 estados, incluindo Pernambuco e o Distrito Federal.

Desse total, foram 25 candidatos a deputado federal, 11 a deputado estadual, três ao Senado e um a suplente do Senado, além de uma candidatura coletiva. O partido que apresentou mais influencers postulantes a cargos públicos foi o Partido Liberal (PL), com 10 candidaturas. Em seguida, apareceram o Partido Progressista (PP), sete influenciadores, o União Brasil (União), com quatro candidatos, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que apresentou três candidaturas.

Em sua maioria, segundo o estudo, os candidatos-influenciadores se autodeclararam brancos, do gênero masculino e com renda superior a R$ 1 milhão. Ainda conforme o levantamento, boa parte das candidaturas já tinha experiência eleitoral.

Novo jeito de ser candidato e com regras específicas

Em 2025, o Brasil foi um dos países com o maior quantitativo de influenciadores, conforme dados do Influencer Marketing Benchmark Report. Ainda segundo o levantamento, o país atingiu o número de 3,8 milhões de criadores de conteúdo no ano passado, ultrapassando a quantidade de médicos, advogados ou engenheiros com registro profissional ativo.

Segundo a advogada eleitoral, Maria Dulce Freire, não há impedimentos para a participação de influenciadores no pleito. Freire observa que, assim como qualquer outra candidatura, o influencer está submetido a regras.

Ao Diario, a magistrada citou a Resolução nº 23755, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que fala sobre a participação de influenciadores na disputa eleitoral, tanto como candidatos quanto como apoiadores. Especialmente em relação às postagens nas redes sociais; são permitidas desde que seja de forma orgânica, ou seja, sem recebimento de valores e impulsionamento.

“Eles [influenciadores] não podem impulsionar [publicações] nesse período de pré-campanha e campanha. Porque o que acontecia era que os conteúdos que colocavam nas redes geravam um desequilíbrio. Além disso, a resolução atual do TSE aponta que é proibido monetizar conteúdos”.

Meu candidato

A manifestação política por parte de influenciadores ou páginas nas redes sociais, de acordo com Maria Dulce Freire, não é vetada e segue o princípio da liberdade de expressão, que é garantida como direito fundamental pela Constituição Federal. Nesse contexto, os criadores de conteúdo podem expressar posições políticas, filiar-se a partidos, defender projetos políticos ou apoiar candidatos dentro do ambiente virtual.

Contudo, a advogada eleitoral aponta que, além dos conteúdos não poderem ser compartilhados mediante tráfego pago, é o proibida a propagação de fake news e discurso de ódio. “Os influenciadores não podem receber dinheiro por causa disso, pois é uma vedação legal. Em caso de recebimento de valores, tanto o criador de conteúdo, administradores das páginas, quanto candidatos envolvidos, podem sofrer sanções como multas”.

Retrato de uma crise

Na análise do cientista político Hely Ferreira, a crescente participação de influenciadores digitais é um retrato da crise dos políticos considerados tradicionais. Para Ferreira, o eleitorado tem se sentido desprestigiado por esse cenário de promessas, muitas vezes, não cumpridas.

“Isso fez com que o eleitor se sentisse menos representado. Ao mesmo tempo, temos uma crise muito grande com a ausência de quem realmente tenha conteúdo dentro da esfera política. Muitas vezes, esses candidatos têm um distanciamento da realidade política e apresentam um pragmatismo que visa, exclusivamente, o resultado eleitoral”, frisa.

O movimento do feed para a urna não surpreende o cientista político. Em seu entendimento, há um discurso contundente acerca da “demonização” da política, assim como para desqualificá-la. “O Brasil é um país que vive de heróis com um discurso fácil que se apresenta, muitas vezes, apresenta aquilo que a população quer escutar”.

Hely Ferreira critica o excesso de profissionalização da campanha eleitoral, que apresenta o candidato como um produto oferecido ao eleitorado. “Hoje, eles [candidatos] são muito mais um produto ofertado do que propriamente alguém que tem competência cabal de representá-los [eleitores]”.

Para ele, é necessário observar se páginas e candidatos, de fato, possuem um alinhamento político, se os discursos e conteúdos apresentados estão em consonância com as agendas que eles dizem defender. “Muitas vezes, eles defendem certas pautas porque entendem que esse é o caminho mais fácil para chegar ao poder. Muitas vezes, é mais um projeto eleitoreiro que beneficia a si mesmo do que um projeto realmente voltado para a sociedade”.

Apesar da análise crítica, Hely Ferreira reconhece que nem todos os influenciadores utilizam a mesma estratégia. “A gente não pode generalizar porque seria um pensamento leviano. Existem pessoas que têm um bom discurso e que acreditam naquilo que estão dizendo. No entanto, ainda é necessário observar a trajetória do que ele ou ela defende hoje, se sempre foi assim ou é uma narrativa apenas imediatista”.

Fonte:DiarioPE

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