Agricultura

COP17: agricultura familiar ganha espaço no debate sobre desertificação; no Sertão de PE, práticas conciliam produção e recuperação do solo

Discussões realizadas no Pavilhão Brasil abordam conservação e recuperação de terras secas; em Ouricuri, família agricultora recuperou áreas degradadas e ampliou a produção.

A agricultura familiar e as práticas de convivência com o Semiárido estão entre os temas presentes nos debates sobre desertificação acompanhados pela reportagem durante a COP17. No Pavilhão Brasil, em Ulaanbaatar, Mongólia, discussões realizadas ao longo da conferência abordam a conservação de biomas, a recuperação de áreas degradadas e o papel das comunidades que vivem e produzem em territórios de terras secas. No Sertão de Pernambuco, uma família de agricultores mostra como essas práticas podem fazer parte do cotidiano de uma propriedade, conciliando produção de alimentos, recuperação do solo e geração de renda.

Na programação da COP17, um dos painéis realizados no Pavilhão Brasil foi “Biomas invisibilizados, soluções essenciais: Cerrado e Caatinga no enfrentamento à desertificação”. A discussão, mediada por Ingrid Silveira, representante da Rede Cerrado, trouxe para o debate a realidade do Cerrado e da Caatinga, dois biomas fundamentais para o equilíbrio ecológico e hídrico da América do Sul e que sofrem com um histórico e sistemático processo de invisibilização, tanto no cenário nacional quanto nas arenas internacionais.

Outro painel acompanhado durante a programação da COP17 tratou do “Manejo e Restauração de Florestas em Terras Secas: Propostas para Mitigar e Reverter a Degradação da Terra na América Latina”. A discussão abordou propostas relacionadas ao manejo e à restauração de áreas de terras secas, tema que também se relaciona com experiências desenvolvidas por agricultores no Semiárido brasileiro.

(A repórter Diana Silva viajou para o evento a convite do Instituto ClimaInfo)

Em Ouricuri, no Sertão de Pernambuco, a família de Guilherme Delmondes mudou a forma de trabalhar a terra a partir do contato com organizações, intercâmbios e processos de formação voltados à agroecologia e à convivência com o Semiárido.A experiência reúne tecnologias de armazenamento e reuso da água, além de técnicas de conservação e recuperação do solo. A propriedade está em uma região com índice pluviométrico de cerca de 500 milímetros por ano, segundo Guilherme.

“Ao aliarmos a tecnologia ao saber tradicional, promovemos uma relação mais harmoniosa com o ambiente.”

 

A mudança na propriedade de Guilherme começou por volta de 2010, quando a família passou a participar de intercâmbios e formações promovidos por organizações que atuam com a convivência com o Semiárido. A partir desse processo, foram incorporadas práticas como curva de nível, plantio consorciado, sistemas agroflorestais, rotação de culturas, uso de biofertilizantes e compostagem.

As práticas adotadas na propriedade também se aproximam de estratégias de convivência com o Semiárido citadas por Luis durante a COP17. Entre elas estão a implementação de cisternas, o manejo adequado do solo, a agroecologia e sistemas produtivos adaptados às características climáticas da região.

Também foram adotadas tecnologias para melhorar o aproveitamento da água. Uma delas é a cisterna de enxurrada, com capacidade para armazenar 52 mil litros. A família também utiliza o Bioágua, sistema que permite o tratamento e o reuso de águas provenientes de atividades domésticas, e um biodigestor que utiliza esterco dos animais para a produção de gás.

Durante a conferência, Luis também destacou que o acesso à água pode contribuir para o desenvolvimento da produção de alimentos e para a segurança nutricional das comunidades.

A disponibilidade hídrica, segundo ele, permite a criação de ciclos produtivos sustentáveis, com práticas como o reúso de águas residuais na agricultura, a produção de mudas, o manejo do extrativismo e o pastoreio consciente.

Segundo Guilherme, as mudanças permitiram recuperar áreas que haviam sido degradadas e, ao mesmo tempo, ampliar a produção. Atualmente, a propriedade produz milho, feijão, gergelim, amendoim, hortaliças e frutas, além de leite e carne. Para ele, houve aumento tanto na quantidade quanto na diversidade dos alimentos produzidos.

Compartilhe: