Saúde

Rastreamento personalizado pode aumentar a eficácia do diagnóstico precoce do câncer de mama

Segundo especialistas, fatores como densidade mamária, predisposição genética, histórico familiar e hábitos de vida precisam ser considerados

Nesta sexta-feira (27), primeiro dia da 11ª edição do Congresso Internacional Oncologia D’Or – Onco In Rio, o câncer de mama foi um dos destaques das discussões entre especialistas e público.

Entre avanços científicos e depoimentos de pacientes, três pontos ganharam destaque: a personalização do diagnóstico, o cuidado humanizado e os desafios do tratamento em situações específicas, como durante a gestação.

O médico oncologista Rodrigo Guindalini apresentou evidências de que adaptar o rastreamento do câncer de mama às características de cada paciente pode aumentar significativamente a eficácia do diagnóstico, além de otimizar recursos do sistema de saúde.Segundo o especialista, fatores como densidade mamária, predisposição genética, histórico familiar e hábitos de vida precisam ser considerados na definição das estratégias.

Quando há predisposição hereditária, isso muda completamente o cenário. Essa paciente não pode seguir a mesma estratégia padrão, baseada apenas na idade. Não é possível esperar até os 40 anos”, afirmou.

Durante a apresentação, o médico destacou o The Wisdom Randomized Clinical Trial, estudo conduzido nos Estados Unidos que investiga modelos de rastreamento baseados em risco individual. A pesquisa utiliza scores de risco poligênico para refinar a identificação de pacientes com maior probabilidade de desenvolver a doença.

Já existem 137 scores publicados. O desafio é entender qual deles é o mais adequado para a população brasileira”, pontuou.

De acordo com o especialista, a adoção dessas ferramentas pode reduzir custos em até quatro vezes, além de aumentar a efetividade das estratégias de rastreamento. “Não podemos avaliar todas as pacientes com a mesma régua. É possível reequilibrar recursos, direcionando-os para quem apresenta maior risco”, explicou.

Guindalini também adiantou que a versão 2.0 do estudo Wisdom deverá incorporar ferramentas de inteligência artificial, ampliando ainda mais a precisão das análises.

Relato
Durante a programação, em um momento emocionante, a jornalista Lilian Ribeiro compartilhou sua experiência após o diagnóstico de câncer de mama, há quatro anos.

Prazer, eu não sou a doença”, disse ao abrir sua fala, destacando a importância de enxergar o paciente além do diagnóstico. Lilian abordou o impacto emocional da descoberta da doença, o papel fundamental da família e a importância de um atendimento individualizado e empático.

“Entender as particularidades de cada pessoa é o primeiro passo para um tratamento eficaz”, afirmou. Ao encerrar, emocionada, reforçou: “Quando fui vista por inteiro, consegui juntar meus pedaços e seguir adiante”.

Câncer de mama durante a gestação
Outro tema que se destacou entre os debates desta sexta (27) foi a abordagem do câncer de mama durante a gestação, apresentada pela oncologista Laura Testa, da Oncologia D’Or, pesquisadora do Instituto D’or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e chefe do Grupo de Oncologia Mamária do  Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP).

Segundo a especialista, o primeiro passo diante de um diagnóstico em gestantes é entender como aquele caso seria tratado fora da gravidez. “A gente precisa saber exatamente onde está a doença e qual é a biologia do tumor. A partir disso, definimos o tratamento padrão e fazemos adaptações para garantir a segurança do bebê”, explicou.

Ela detalhou que, no primeiro trimestre, fase de formação do feto, tratamentos com medicamentos não são indicados. Nesses casos, quando possível, a cirurgia pode ser priorizada. Já a partir do segundo trimestre, há esquemas de quimioterapia com segurança comprovada tanto para a mãe quanto para o bebê.

“A gente já tem dados sólidos mostrando que algumas quimioterapias podem ser feitas com segurança durante a gestação. O que não pode acontecer é não tratar”, alertou. Segundo ela, adiar o tratamento pode levar a piores desfechos, tanto para a mulher quanto para a gestação.

Tratamento
Por outro lado, algumas terapias continuam contraindicadas durante a gravidez, como os tratamentos hormonais e aqueles voltados à proteína HER2, que podem causar malformações ou complicações no desenvolvimento fetal.

Após o nascimento do bebê, as restrições diminuem, e o tratamento pode ser retomado de forma mais ampla. No entanto, a especialista destaca que isso impacta diretamente a amamentação.

“Muitas pacientes precisam retomar medicações que passam pelo leite materno. Por isso, na maioria dos casos, a amamentação acaba não sendo possível”, explicou.

A condução desses casos exige atuação multidisciplinar. “O oncologista nunca trabalha sozinho. No caso da gestante, o obstetra é parte fundamental da equipe”, destacou.

Fonte: FolhaPE.

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