A trapaça da mídia contra Lula no ato dos blogueiros

imagemPor Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania

Não é fácil cobrir política no Brasil, segundo repórter de um dos grandes veículos de mídia que cobriram a palestra que o ex-presidente Lula deu a centenas de blogueiros na última sexta-feira. Informações que tal repórter me deu sem saber com quem falava serão úteis para a compreensão da manchete sobre o evento que ganhou as capas dos grandes jornais de sábado (17/05).

A grande imprensa compareceu em peso ao hotel Braston, no centro velho de São Paulo, onde está acontecendo o 4º Encontro Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais. Havia repórteres de vários grandes meios de comunicação – O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, G1, UOL, Terra, IG… Só não foi visto repórter da Veja.

O corredor que dá acesso ao salão de convenções na sobreloja do hotel estava intransitável. Por ali, misturavam-se os participantes do evento e a imprensa. Esta, porém, tinha uma porta de acesso exclusiva ao salão, que desembocava em um cercadinho feito para os repórteres.

Salvo um ou dois incidentes entre blogueiros menos pacientes com as manipulações midiáticas e repórteres, a imprensa foi bem recebida. Porém, esses “operários da notícia” estavam tensos e este blogueiro descobriu que não era por medo do público que ali estava, mas devido à pressão que um desses “operários” – que, por razões óbvias, não será identificado – insinuaria que todo repórter de política sofre quando tem que cobrir Lula.

Para extrair sinceridade de um dos membros da imprensa que ali estavam, a solução foi este que escreve dissimular a razão de sua presença no local fingindo que participava de outro evento no salão de convenções contíguo àquele em que Lula palestraria. Travou-se, então, o seguinte diálogo com um dos repórteres:

Blogueiro — O que está acontecendo aí?

Repórter – O Lula vem falar.

Blogueiro – Quem é toda essa gente?

Repórter – São blogueiros aliados do PT; Lula vem falar pra eles.

Blogueiro – Lula é sempre notícia, né?

Repórter – Notícia cabeluda. Dá um trabalho danado.

Blogueiro – Por quê?

Repórter – A gente tem que achar a “pauta certa”…

(…)

Infira você, leitor, qual é a “pauta certa”.

A palestra em questão foi excelente. Lula estava inspirado, como sempre. Enquanto encantava a plateia com suas tiradas engraçadas, fiquei pensando o que a imprensa poderia encontrar para comprometê-lo. A presença maciça de repórteres em mais um encontro do ex-presidente com blogueiros certamente se destinava a encontrar algo que pudesse servir para a mídia tentar desgastá-lo publicamente.

Ao fim da fala de Lula, achei que ele não oferecera matéria-prima para que os robôs teleguiados pela grande mídia pudessem usar. E não havia mesmo. Por isso, foi preciso inventar.

Após Lula falar, participantes do Encontro de Blogueiros relataram uma cena inusitada presenciada por vários deles: repórteres de vários veículos distintos reuniram-se para discutir que pauta comum todos entregariam às suas respectivas redações.

Um repórter sugeria distorcer, omitir ou destacar este ponto, outro contestava aquela ideia e dava outra. Alguns dos blogueiros que presenciaram a cena aproximaram-se do grupo de repórteres inquirindo-os sobre se era comum fazerem aquilo, reunirem-se e combinarem o que iriam divulgar sobre o que haviam presenciado.

A interpelação dispersou os repórteres, que foram se reunir em outra parte. O resultado dessa reunião, porém, começou a ser visto no mesmo dia nos portais G1, UOL etc., e ganhou maior repercussão nos jornais de sábado (17). Leia aqui uma das manchetes principais de primeira página que decorreram de uma distorção criminosa da fala do ex-presidente.

Chega a ser inacreditável que a mídia tenha pinçado e distorcido uma frase de Lula dessa forma. O ex-presidente disse o seguinte:

“Nós nunca reclamamos de ir a pé (ao estádio). Vai a pé, vai descalço, vai de bicicleta, vai de jumento, vai de qualquer coisa. A gente está preocupado? Ah não, porque agora tem que ter metrô até dentro do estádio. Que babaquice que é essa?“

O que Lula disse foi que, no Brasil, nunca ninguém pediu que estações de metrô fossem construídas dentro de estádios de futebol e que agora estavam cobrando alguma coisa que nunca foi pedida no Brasil. E emendou dizendo que brasileiro, para ver futebol, não mede esforços.

As palavras do ex-presidente, da forma como foram expostas, dão a entender que ele acha que o povo não merece ter estação de metrô dentro de estádio de futebol, o que seria não só uma “babaquice”, mas um desperdício de recursos públicos, pois o povo não vai a estádios todo dia, mas usa metrô todo dia e por certo os locais para construir estações devem ser mais adequados.

Pode-se construir estação de metrô em um hospital, em shoppings e em terminais rodoviários ou de trens porque são locais de grande afluxo diário de pessoas, mas não faz sentido construir dentro de um estádio de futebol. Durante a Copa até seria útil, mas e depois?

O que fica desse episódio é a confirmação de um procedimento da velha mídia que todo mundo conhece, mas que nem todos devem se lembrar. Em 2006, por exemplo, quando foi apreendido o dinheiro dos “aloprados”, aconteceu a mesma coisa – repórteres e policiais armaram um cenário com o dinheiro apreendido que fez seu volume físico parecer maior.

Infelizmente, mais uma vez se confirma que a luta para agradar as chefias leva jovens repórteres a praticar toda sorte de trapaças com a notícia. E que esta é “tratada” para dizer aquilo que os patrões desses jovens querem que seja dito, obviamente em prejuízo do direito do público a receber fatos em vez de versões e interpretações subjetivas como essa de que trata o post.

Palestra no 4º Encontro Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais

Foi um grande prazer palestrar ao lado dos blogueiros Iroel Sánchez, de Cuba, e de Osvaldo León, do Equador. Abaixo, resumo da palestra “A mídia na América Latina”, que proferi na sexta-feira para centenas de blogueiros e ativistas digitais no hotel Braston, em São Paulo.

“Boa tarde, blogueiros e ativistas digitais.

Quiero saludar a los compañeros de Cuba, Iroel Sánchez, y de Ecuador, Osvaldo León. Es muy placentero tenerlos en nuestro país y saber de sus experiencias y de la realidad sobre los medios de otras partes de nuestra Latino América.

Cabe-me a missão de compor o lado brasileiro desta mesa amparado pelas viagens de negócios que faço pela América Latina há cerca de duas décadas e relatar o que vi em relação à mídia da região.

Seja nos periódicos argentinos Clarín ou La Nación, seja nos bolivianos El Deber ou El Mundo, seja nos chilenos El Mercúrio ou La Tercera, seja nos brasileiros Folha de São Paulo ou Globo, seja nos equatorianos Últimas Notícias ou El Comercio, seja nos venezuelanos El Universal ou El Nacional, seja nas grandes redes de TV, enfim, em qualquer braço dos grandes impérios de mídia que há muito dominaram a comunicação nesta parte do mundo o que se vê é sempre a mesma coisa.

Da Argentina ao Brasil, passando por Uruguai e Paraguai, os grupos de mídia (quase sempre dominados por uma família) ajudaram a implantar ditaduras ferozes que cometeram toda sorte de crimes que se possa imaginar. Mas não é só.

A mídia latino-americana, sob o guarda-chuva da infame Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), atua em conjunto, como em uma sinfonia, para defender a desigualdade social que mantém quase meio bilhão de pessoas vivendo em sociedades que priorizam os interesses de poucos em prejuízo da grande maioria.

Um exemplo dessa sinfonia macabra que reúne a mídia latino-americana sob um mesmo guarda-chuva antidemocrático foi visto em 2007. Naquele ano, uma manifestação reuniu 40 lideranças dos movimentos sociais em São Paulo para protestar contra a presença em nosso país do dono da RCTV venezuelana, Marcel Granier.

O magnata dono do veículo que mais atuou no golpe de Estado tentado pela direita na Venezuela em 2002 foi convidado pelos donos da mídia brasileira. Granier palestrou no Hotel Meliá Mofarrej em um “ato em defesa da liberdade de imprensa”, organizado por diversas entidades dos magnatas da comunicação. Impedidos “democraticamente” de entrar no recinto, os manifestantes protestaram no hall e em frente ao hotel.

Pior do que isso é olhar, por exemplo, para um império de mídia como o Grupo de Diários América, dono de outros jornais de países sul-americanos como El Nacional, da Venezuela, El Tiempo, da Colômbia, El Mercúrio, do Chile, e La Nación, da Argentina.

É uma afronta à democracia desses países que um mesmo grupo estrangeiro controle veículos de comunicação em vários países simultaneamente.

Em certo aspecto, aliás, o que posso testemunhar do que vi ao longo de dezenas de viagens a Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Panamá, Paraguai, Uruguai e Venezuela é que nesses países a mídia ainda é pior, mais desonesta, mais antidemocrática do que a que temos hoje no Brasil, talvez por em vários desses países estar encontrando resistência maior do que a que encontra em nosso país.

Nesse aspecto, sobressai a Venezuela. Se, no Brasil, achamos que a mídia é ruim, antidemocrática, capaz de toda sorte de manipulações, os grupos de mídia venezuelanos são controlados por criminosos. Ainda são. Bandidos que com suas ações nefastas causaram incontáveis mortes estimulando manifestações que sabiam no que terminariam.

Há muito material disponível na internet sobre as atrocidades da mídia Venezuelana e não só em 2002, quando se viu mais um golpe de Estado midiático na América Latina. Com a diferença de que foi no século XXI. Mas, para encerrar minha participação neste debate, sugiro a quem não conhece que assista ao documentário Puente Llaguno.

Trata-se de uma ponte em Caracas em que ocorreu um massacre de cidadãos que tentavam impedir a tentativa de golpe de Estado de 2002 na Venezuela. Apesar de os manifestantes pró Hugo Chávez terem sido cercados e fuzilados naquela ponte por franco-atiradores, com ciência de veículos de comunicação como a RCTV, a mídia, enquanto o golpe se desenrolava, invertia os fatos.

A mídia latino-americana ainda é um Kraken, espécie de polvo gigante que ameaçava navios, segundo o folclore nórdico. Seus tentáculos espalham-se por toda região, controlados por uma só cabeça, uma cabeça ianque, com interesses ianques, com métodos ianques. Nosso papel, aqui, é cortar os tentáculos dessa monstruosidade.

Muito obrigado pela atenção”

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